Expansão ultramarina portuguesa

O século XV e XVI na Europa

A Europa estava se recuperando de momentos difíceis vivenciados em anos anteriores. Terríveis mudanças climáticas, como as violentas chuvas que ocorreram em 1315 afetaram a produção de alimentos matando várias pessoas de fome e deixando muitas na miséria. Em 1348 uma epidemia de peste bubônica (peste negra) se espalhou pelo continente e fez vítimas muitos daqueles que apresentavam seus sintomas: dor de cabeça, alta temperatura e o aparecimento de caroços no corpo. A doença matou cerca de 25 milhões de pessoas.

Além destes desastres, guerras eram travadas constantemente, pricipalmente por questões religiosas. A igreja determinava o modo de pensar, de viver e os fenômenos eram explicados pela fé.

Peste negraFanatismo religioso

Cruzadas

 

O período que sucedeu esta crise, compreendido entre o século XV e XVI é marcado pela recuperação e por transformações em muitas áreas da vida humana. Movimentos artísticos, literários e científicos de uma elite culta e endinheirada evidenciavam o fim do pensamento centrado na religião e no misticismo.

O pensamento passou a focar o ser humano e o uso da razão através da ciência, sem romper totalmente com a religiosidade. Esse movimento ficou conhecido como Renascimento.

O desenvolvimento das línguas nacionais, somado à expansão da cultura, as lutas entre senhores feudais, o impulso dado ao comércio, a ideia de que o rei era uma figura sagrada, também criaram condições favoráveis para a formação dos Estados nacionais. Uma faixa litorânea da península Ibérica, voltada para o oceano Atlântico foi o primeiro destes Estados a se formar: Portugal. E foram os portugueses que tiveram o importante papel de impulsionar a recuperação da crise, restaurando o campo e o mercado urbano. Durante o século XV, Portugal foi uma potência econômica mundial, social e cultural, constituindo-se o primeiro e mais duradouro império colonial de amplitude global.

Renascimento

 

Razões do expansionismo português

Com a formação dos Estados nacionais, a política européia evoluia e no plano econômico a grande crise do século XIV era superada. A mão de obra ativa em toda a Europa estava escassa devido a redução da população. A produção ficou reduzida, a oferta de mercadorias não conseguia suprir a demandada. Dessa forma, a procura de produtos orientais aumentou, principalmente de especiarias, como noz-moscada, pimenta-do-reino, gengibre. A aquisição desses produtos implicou no escoamento de moedas da Europa para o Oriente. Os preços estavam só aumentando e a Europa comprava mais do que vendia.

Portugal e Espanha

Para superar essa situação, os Estados nacionais precisavam garantir um fluxo de renda, para isso procuravam expandir seus mercados, buscando os produtos que teriam a venda garantida. Como os preços estavam elevados, buscavam reduzí-los eliminando os vendedores intermediários, que eram comerciantes italianos que monopolizavam a distribuição dos gêneros orientais à Europa. Apenas os Estados fortes, centralizados, monarquias absolutas, tinham condições de levar adiante esse empreendimento, barateando o custo das mercadorias e ampliando o grande comércio de ouro e especiarias. Era necessário um grande investimento e principalmente de um coordenador, por isso foi muito importante a figura do rei. Além de formar um acúmulo de capitais pela cobrança de impostos, o rei canalizava os investimentos da burguesia para esse grande empreendimento estatal.

Com a guerra dos Cem Anos (1337 – 1453), a principal rota comercial do mundo ocidental, que ligava por terra as cidades da costa do Mediterrâneo às do norte da Europa entrou em decadência. Os progressos da navegação e da construção naval permitiram que esse comércio fosse realizado por uma rota marítima que partia do mar Báltico e do mar do Norte e chegava ao Mediterrâneo. Com essa mudança, as regiões centrais do continente europeu perderam importância comercial. Enquando as regiões costeiras ao Atlântico, foram beneficiadas, tornando-se passagem obrigatória dos mercadores que transitavam entre o norte e o sul do continente em busca de negócios lucrativos.

Assim, a nova rota marítima deu a Portugal, no século XIV, a oportunidade de integrar-se às atividades mercantis efetuadas entre as regiões mais prósperas do continente europeu. As consequências para os portugueses foram o crescimento de cidades portuárias, como Lisboa e Porto, e a realização de contatos comerciais regulares com as cidades da península Itálica e com a França, Inglaterra, Flandres e as cidades do Sacro Império Romano-Germânico.

comércio

Diversos setores da sociedade portuguesa estavam interessados nos benefícios propiciados pelas navegações. Os motivos eram, entre outros, aspectos políticos, econômicos e religiosos. A monarquia portuguesa desejava fortalecer seu poder e construir um império. Para isso, fazia-se necessário conquistar novas terras e controlar uma vasta rede comercial. Os nobres vislumbravam na expansão territorial uma oportunidade para conquistar terras, riqueza, títulos e prestígio. A belicosidade, os desejos de realizar saques e tomar terras por parte dos nobres portugueses foram frequentemente disfarçados com o espírito de cruzada. O pretexto de combater pela cruz ajudou a impulsionar inúmeras conquistas de territórios mouros e africanos. A igreja, por sua vez, estava interessada em expandir a fé católica e aumentar o número de fiéis.Para a burguesia, os motivos eram a expansão territorial e o contato com outros povos que só fariam aumentar as atividades comerciais e os lucros. Para a população em geral, as navegações abriam possibilidades de ascensão social, de aventuras e enriquecimento rápido.

 

Portugal: o Estado pioneiro

Portanto, devido a precocidade no processo de centralização monárquica e pela privilegiada posição geográfica voltado para o Atlântico, Portugal foi o primeiro país europeu a iniciar a expansão ultramarina.

Sob a dinastia de Borgonha, com Dom Dinis (1279 - 1325), os portugueses iniciam o aprimoramento técnico, com a construção de navios de guerra. O aperfeiçoamento náutico e o gradativo domínio das artes de navegação permitiram que a nação se tornasse pioneira no comércio marítimo, entre o mar do Norte e Mediterrâneo. Tal atividade propiciou o enriquecimento e a ascensão social da burguesia lusitana. Essa camada da população tornou-se ainda mais numerosa e importante com a inclusão de grandes mercadores, banqueiros e armadores estrangeiros, que se estabeleceram em Portugual e participaram ativamente das conquistas de mercados.

A primeira conquista portuguesa foi Ceuta, em 1415. Situada em frente ao estreito de Gibraltar, era um importante centro muçulmano no norte da África. Ao conquistar essa cidade, Portugal tinha dois objetivos: conter a pirataria e reduzir a influência muçulmana aos limites terrestres do Marrocos. O domínio de Ceuta garantiu a Portugal a obtenção de uma grande reserva em ouro, pricipalmente através do saque, resolvendo temporariamente o problema da escassez de metais preciosos. Os portugueses não conseguiram prosseguir seu avanço além dos limites da cidade, enquanto as caravanas com ouro e produtos orientais, controladas pelos árabes, foram desviadas para o interior de Marrocos.

Ceuta Estreito de Gibraltar

Após a tomada de Ceuta, navegadores portugueses chefiados por D. Henrique, ocuparam a Ilha da Madeira. O oceano Atlântico, na época também era conhecido como Mar Tenebroso. Os estudos náuticos da época visavam aperfeiçoar as técnicas de navegação, permitindo enfrentar esse desafio de explorá-lo. Alguns livros de história apontam a construção em 1420 no Algarve de um centro de estudos náuticos, chamado Escola de Sagres, no entando, alguns historiadores defendem a tese de que esta escola jamais existiu, sendo apenas um mito construído pelo fervor nacionalista da historiografia portuguesa do período romântico do século XIX. 

Escola de Sagres

Seria esta uma escola náutica lendária, fundada pelo infante D. Henrique no promontório algarvio de Sagres, no século XV. A escola teria servido para a preparação técnica dos navegadores e pilotos que estavam ao serviço do Infante, constando de sábios nacionais e estrangeiros versados em astronomia, geografia e cartografia que dedicavam o seu tempo a um aturado estudo de todas estas matérias e a inventar toda a sorte de instrumentos de marear que pudessem vir a ser úteis à náutica. Embora o mito da sua existência tenha sido alimentado durante muito tempo, os investigadores não lhe encontram fundamento histórico, tendo esta teoria tomado forma na investigação de bastantes historiadores do século XIX. A fama adquirida por este instituto chegou ao ponto de a tornar um modelo de comparação com a "degradação" do ensino em épocas posteriores, como aconteceu no governo pombalino. A verdade é que o rei D. Manuel I tinha na sua corte cinco médicos e astrólogos de origem judaica, não se conhecendo menções a quaisquer uns forasteiros, e que o conceituado Jaime de Maiorca esteve em Portugal nos alvores do século XV na qualidade de mestre de fazer cartas de navegar, ensinando a técnica da cartografia. Por outro lado, era ainda incipiente a navegação experimentada pelos pilotos e navegadores através dos astros, não sendo produtiva a imposição de uma técnica ainda em fase de teoria e, sobretudo, não sendo este procedimento conforme à mentalidade da época. Finalmente, não se registam quaisquer menções a esta escola ou associação com fins similares nas crônicas da época ou imediatamente posteriores, o que deve ser tomado em linha de conta. Optaram determinados historiadores por uma solução de compromisso, em que por "Escola de Sagres" se entende a forma de navegar no Oceano Atlântico e de resolver os problemas específicos que iam surgindo e não uma instituição física.

Fonte: Escola de Sagres. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2012. Disponível em: .  Acessado em 2 de novembro de 2012;

 

Entre os anos de 1427 e 1432, foram ocupados os Açores e outras ilhas do Atlântico, onde se desenvolveu a produção do açúcar. Até o século XV, o mel era praticamente o único tipo adoçante na Europa. O açúcar somente era produzido na Sicília e no Chipre em pequena quantidade . Seu valor era extremamente elevado. Nas ilhas do Atlântico, Portugal investiu na produção açucareira a partir de 1452 , sendo colocado como monopólio real. Era mandado para Lisboa sob a forma de rapadura e exportado para as regiões de Flandres, Gênova e Veneza, onde era refinado e vendido para a Europa. Mesmo gerando grande lucro para os portugueses, a empresa marítima precisava ser financiada com empréstimos e uma espécie de serviço militar obrigatório.

Enquanto na região de Ceuta, a cidade estava se esvaziando economicamente e a manutenção do domínio português cada vez mais cara. Dessa forma, eles se sentiram obrigados a encontrar outro local para saquear, continuando sua expansão de terrítorios pelo mar, indo cada vez mais ao sul da África. Assim, depois da ocupação das ilhas do Atlântico, os portugueses iniciaram a exploração da costa ocidental do continente africano, iniciando o périplo africano (contorno da costa africana), dominando as zonas litorâneas.

Em 1434 os navegadores chegaram à região do Rio do Ouro, após passarem pelo Cabo do Bajador, um local desconhecido e com o mar bravio. Nesta região além de metais preciosos, marfim, pele, encontraram a pimenta malagueta: um produto que passou a concorrer com a pimenta da Índia.

O escravismo, que havia sido extinto após o Império Romano, foi reavivado nesta região do Rio do Ouro, onde foram feitos os primeiros escravos. Isso ocorreu devido a falta de mão de obra no reino português. O tráfico de escravos veio a se tornar um excelente negócio, sendo aderido por outros povos europeus.

Nas regiões tomadas pelos portugueses eram fundados entrepostos comerciais, chamados de feitorias, que mais tarde ocuparam toda a costa africana. Após a queda de Constantinopla em 1453, a ideia de encontrar um caminho alternativo para a Índia cresceu, mas não sabia se haveria uma passagem contornando a costa africana.

Então em 1488, a região ao sul da Cidade do Cabo próximo ao extremo sul da África, foi dobrada pela primeira vez pelo navegador português Bartolomeu Dias. Contam as histórias da época que, como foi avistado depois de vários dias em que os marinheiros sofreram violentas tempestades (tormentas), aquele navegador lhe pôs o nome de Cabo das Tormentas. Ao retornar, com a notícia, o rei João II de Portugal mudou o nome porque, ao ser dobrado, mostrou a ligação entre o Oceano Atlântico e o Oceano Índico e prometia a tão desejada chegada à Índia. Chamou-lhe, por isso, de Cabo da Boa Esperança. Dessa forma, Bartolomeu Dias abriu a rota marítima para a Ásia.

 

A divisão do mundo entre Portugal e Espanha

Outros países europeus também fizeram grandes navegações marítimas. A Espanha, quase um século depois de Portugal, iniciou suas expedições logo que completou sua centralização monárquica. Os Reis Católicos espanhóis cederam ao navegador genovês, Cristovão Colombo, três caravelas, com o objetivo de chegar às Índias navegando na direção oeste. Colombo atingiu as ilhas de San Salvador, Cuba e Hispaniola (atual São Domingos), acreditando ter chegado ao Japão.

Com a entrada da Espanha no ciclo das grandes navegações, criou-se uma polêmica com Portugal pela posse das terras recém descobertas. A diplomacia castelhana (espanhola) apressou-se a obter junto ao Papa Alexandre VI, castelhano, uma partição de terras.

Assim, em 3 de maio de 1493, foi criada a Bula Inter Coetera que estabelecia uma linha de marcação, um meridiano que passava a cem léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. As novas terras descobertas, situadas a oeste do meridiano , pertenceriam a Espanha. As terras a leste, pertenceriam a Portugal.

Os termos da bula não agradaram a João II de Portugal, assim sendo, abriu negociações diretas com os Reis Católicos para mover a linha mais para oeste.

A questão foi resolvida pelo Tratado de Tordesilhas de 1494: Portugal ficaria com as as terras até 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, o restante pertenceria à Espanha.

Mapa Tratado de Tordesilhas e Bula Inter Coetera

Quando foi descoberto ouro na América, pelos espanhóis, outras nações européias, principalmente a França, passaram a contestar a arbitrária divisão do mundo. Ao mesmo tempo tentavam abrir novas rotas para a Ásia através do hemisfério norte e utilizavam da pirataria para atacar navios estrangeiros.

O caminho para as Índias

Em 8 de julho de 1497, partiu de Portugual uma esquadra com 4 embarcações, chefiada por um homem, chamado Vasco da Gama, com o objetivo de confirmar a teoria de que a Índia era acessível por mar. Era uma expedição essencialmente exploratória. Após iniciada a viagem, grande parte da população sofria com o escoburto.

Trajetória da Viagem de Vasco da Gama para as Índias

 

Vasco da Gama na Índia

Os homens que viviam nos barcos navegando, consumiam principalmente bolachas e carne de porco salgada. Passavam longos períodos sem ingerir folhas ou frutas frescas. Por esse motivo eram atacados pelo escorbuto (do latim scorbutus). Uma doença que tem como primeiros sintomas hemorragias nas gengivas, tumefação purulenta das gengivas (inchaço com pus), dores nas articulações, feridas que não cicatrizam, além de desestabilização dos dentes. É provocada pela carência grave de vitamina C na dieta.

Depois de meses navegando,a frota chegou a Moçambique, onde travaram combates com piratas e comerciantes muçulmanos. Quando chegaram à Índia, continuaram enfrentando combates principalmente em Melinde e Calicute. Os portugueses conseguiram comprar grande quantidade de produtos orientais a preços baixos e retornaram para Lisboa em julho de 1499, obtendo grandes lucros. Cerca de dois terços da tripulação, foi vitimada pelo escoburto.

 

A chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil

Animados com os lucros obtidos com a viagem de Vasco da Gama, foi organizada uma nova esquadra com 13 navios. Maior e sob o comando de Pedro Álvares Cabral, zarparam em 9 de março de 1500. Em 21 de abril chegaram ao Brasil, uma terra desconhecida, que foi batizada de Ilha de Vera Cruz, fundeando a região de Porto Seguro, na Bahia. Prosseguiram viagem para o Oriente, onde perderam 4 navios no Cabo da Boa Esperança. Chegando em Calicute, bombardearam a cidade e realizaram comércio em outra região. Retornaram a Portugal obtendo um lucro que justificou o capital investido.

Percurso de Pedro Álvares Cabral

A descoberta do Brasil em 1500 foi, portanto, uma consequência da expansão ultramarina portuguesa.

A exploração da nova terra, porém, foi deixada incialmente de lado, pois Portugal obtinha grandes lucros com o comérico oriental.

Após várias décadas de estudos, os historiadores chegaram a conclusão que a descoberta do Brasil não foi por acaso. Alguns navegantes estiveram no litoral brasileiro antes de Cabral. Essa convicção encontra apoio em várias fontes. Bastante citado, por exemplo, é o livro Esmeraldo de Situ Orbis, escrito entre 1505 e 1508, por Duarte Pacheco Pereira, membro da expedição de Cabral, que a certa altura menciona:

"[...]temos sabido e visto como no ano de Nosso Senhor de 1498, vossa Alteza nos mandou descobrir a parte ocidental da grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada grande terra firme e com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela".

Além disso, pode-se citar o fato que a Coroa portuguesa deveria saber da existência de terras nesta parte do mundo quando houve a longa negociação de D. João II com a Espanha que, em 1492 resultou no Tratado de Tordesilhas.

 

Referências

CAMPOS, Raymundo. História do Brasil . São Paulo. Editora Atual, 2 edição, 1991.

PAZZINATO, Alceu Luiz; SENISE, Maria Helena Valente. História Moderna e Contemporânea . São Paulo. Editora Ática, 12 edição, 1998.

BLAYNEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo. Editora Fundamento Educacional, 2004.

Escola de Sagres. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2012. Disponível em: .  Acessado em 2 de novembro de 2012;

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